domingo, 22 de junho de 2008

Imóvel



Ultimamente ela andava refletindo sobre as mudanças. Diariamente listava para si tudo o que gostaria de mudar. A posição dos móveis, a tela de descanso do computador, o menu que a empregada usava para eleger o almoço... A lista seguia e ela refletia se aquele par que tanto gostava ficaria melhor em preto ou se alterar a organização das gavetas facilitaria o acesso às meias. Trocar de cabeleireiro também era uma boa idéia e um item de certa forma urgente - o atual nunca acertava o corte.

Ela passava as horas livres ensaiando movimentos e imaginando as implicações dessas mudanças. Parecia algo banal, mas ela encarava aquela lista de ameninades como algo seríssimo. Mudanças nunca são inofensivas. E nunca podemos saber com antecedência quais serão as mais doloridas, pensava. Por isso, dedicava àquelas pequenas questões imensas considerações.

Alterar as coisas que a incomodavam exigia uma certa dose de desapego. Ela havia sido assim um dia. Mas questionava se ainda seria indiferente às coisas com as quais havia se habituado. Ela sabia que em alguns dias o almoço a agradava e a tela do computador não era maçante quando estava ocupada demais para notá-la. O cabeleireiro sempre rendia bons papos quando estava muito só e o sofá ficava próximo à porta da cozinha, o que era cômodo. No entanto, ainda achava que todos mereciam estar presentes na sua lista.

Sabia o que estava por trás daquele aparente conflito. O peso do costume e do convívio repetido. Mesmo sabendo que nem sempre eles a incomodavam, ela se sentia importunada pelo simples fato de saber que existia uma lista de coisas que precisava mudar. Tentava ser complacente consigo e desculpava-se considerando que talvez não soubesse sequer por onde começar. Talvez ela simplesmente tivesse medo das coisas que não podem ser devolvidas ao lugar, dos desdobramentos que não permitem um retorno. Ela sabia que o receio suavizava o contorno das suas certezas. E ficava ali, imóvel.

Um comentário:

Cristina Peter disse...

Tenho feito a mesma coisa esses dias. Penso demais, penso tanto que paraliso, mas já estou melhorANDO.
Beijos