quinta-feira, 12 de junho de 2008

O vício



Não havia como tocar aquilo sem ser franca consigo mesma. Ela até já havia tentado viver sem franqueza, mas tinha falhado miseravelmente. No final ser franca parecia um vício, algo tão destrutivo quanto o discurso da fidelidade. A necessidade de ser sincera era como algo no horizonte, uma referência espacial e emocional sem a qual ela perdia a identidade e não se reconhecia. E ela morria de medo disso, pois sabia que bastava um passo em falso para se tornar o que sempre desprezou.

Ela agora estava assim. Dividida. Não queria tanta coisa, mas as aceitava, como quem carrega um fardo. Não entendia outras, e as repetia, como se não pensasse por conta própria. Tudo para promover o sossego alheio. No entanto, o desejo de ser franca a deixava inquieta. Ela até conseguia manter a máscara por um tempo. Boa esposa, companheira, mãe, irmã, vizinha... Mas ela era por natureza rebelde e acabava questionando os motivos que a obrigavam a se relacionar com o mundo daquela forma.

A franqueza era sua válvula de escape. Era o que ela usava, calculadamente, para sinalizar a todos o quanto poderia ferir e como isso era fácil para ela. E ela adorava a força que a franqueza proporcionava. Nem precisava usar todo seu poder de fogo. Era só rasgar a barreira social, vazar 1% daquela bílis. Só isso e ela já se sentia aliviada, como quem tinha conseguido drenar algo que já quase transbordava. No momento seguinte, no entanto, se sentia mal consigo. Era como se acabasse de recair e se deixar levar pelo vício. E as paredes sociais que pregam a boa conviência e a domesticidade se fechavam sobre ela, acusatórias.

Depois de tanto oscilar entre a rendição ao que desprezava e a aceitação da fraqueza diante do próprio vício, ela havia encontrado o limite. Por isso, não queria mais compactuar com o que não concordava, principalmente se isso significava abdicar de suas crenças. Não quando viver como os outros implicava em envelhecer por dentro e perder a jovialidade que tanto prezava. E, para garantir que ela conseguiria chegar até o fim e não iria se deter diante de alguma hipocrisia que a pegasse desprevenida, ela abriu a porta.

Nenhum comentário: