
Ela havia chegado cedo.
O que a deixava satisfeita, mais do em qualquer outra época de sua vida. A preparação havia sido primorosa e seguido todo o ritual da fêmea prestes a acasalar pela primeira vez. Ou, ao menos, com um macho interessante, após tantos anos. Apesar do casamento - ou talvez por conta dele - os rituais de acasalamento já não eram seguidos há muito tempo.
Mas ela decidira levar a sério seu desejo daquela vez. Ora, era um desejo!! Antes só havia desinteresse... E no closet onde as cores pastéis faziam companhia aos jeans e sapatilhas práticas, ela se preparou para aquela noite. E se olhou no espelho que tantas vezes a tinha refletido apática, séria e distante. A boca estava suavemente pintada e o olhar era de desafio.
Eram nove horas e ela estava lá. Se algo desse errado desta vez, ela não poderia culpar o timming. Tudo parecia estar em seu lugar... No entanto, algo faltava. E não era aquele que se tornaria seu amante dentro de poucos minutos. Não era o vinho, ou a discrição do local, tampouco a umidade do seu sexo, que molhava a lingerie delicada que comprara especialmente para aquela noite. Ela parecia ter perdido algo no caminho e quase não resistiu ao ímpeto de olhar para trás. Não, o que estava perdido ela não encontraria ali. Decidiu esquecer o assunto, já que o barulho do portão anunciava a chegada dele. Se algo faltava, ela não conseguiria encontrar agora.
Os dois sabiam o motivo daquele encontro. Ainda assim, os olhares se encontraram
Todo aquele receio não parecia natural. O que ele esperava, afinal? Atacá-lo começava a soar como uma ótima alternativa diante das circunstâncias. Mas talvez não fosse tão gostoso quanto aquela espera doce, que enrijecia seus mamilos, que fazia pesar suas pálpebras, que a fazia pressionar as pernas para conter o desejo que há tempos não sentia. Algo nela passou a mensagem certa e, enfim, ela se viu frente a frente com aquela boca que já desejava há alguns meses. Carnuda.
Ele ficou ali, respirando o quase beijo que ela estava louca para dar. Sentindo o que exalava pelos poros, como se, em segundos, tivesse deixado de ser um garoto de vinte e poucos anos para se transformar em um homem que sabe exatamente o que fazer e como fazer para transformar um beijo em algo único. Ela era ousada – ou então não estaria ali – e tocou sua boca com a língua. Ele esperou e ela experimentou novamente, buscando descobrir, ansiosa, o que ele tinha a oferecer. E então todas as suposições e conjecturas desapareceram no momento em que ele a segurou firme e invadiu sua boca com a língua mais experiente que ela havia experimentado até aquele momento. No meio daquele beijo e das sensações que dominaram seu corpo, ela descobriu o que havia perdido: a leveza e o descompromisso da juventude. A tranqüilidade de se entregar e sequer pensar no dia seguinte. Mas não era para ser o contrário? Não são justamente as mulheres que ultrapassam a barreira dos trinta que se descobrem serenas senhoras de si e de suas decisões? Foi então que ela percebeu que eram muitas questões sem respostas no meio de um beijo que era para ser só um beijo numa noite que era para ser somente prazer.
Sem dizer nada, ela se levantou e foi embora.
Um comentário:
Ansiosamente li o texto. Palavra por palavra. Inevitavelmente erótico e excitante. Fui e voltei a cada frase, observando a pontuação, a grafia, a ansiedade, o desabafo, e o D e s e j o. Comi cada palavra escrita. Li a última e paralisei. Passei o cursor pra cima e pra baixo novamente e retardei meu pensamento. Meus véus foram desnudados. Não era algo para refletir. Senti-me uma mulher de desejos e não apenas de fases, ases e esses.
Obrigada!
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